Saudade dos punks

Matéria e foto publicadas na Zero Hora de 23 de dezembro de 2005, Caderno Bom Fim.

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RODRIGO LOPES/ Editor-assistente de Mundo de ZH e morador do Bom Fim há 27 anos
Para um guri nascido e criado em apartamento na Avenida Osvaldo Aranha, a Redenção sempre foi o pátio da minha casa. Na grama em torno do espelho d'água, dei meus primeiros passos. No chafariz, brinquei com uma lancha motorizada - e como me encantavam as águas dançantes. Durante quase oito anos, no "areião" do Parque Ramiro Souto, participei das peladas-aulas de Educação Física da Escola Anne Frank. Era naquele calor do meio-dia que o "sôr Getúlio", que aliás ainda está lá, insistia em me ensinar a jogar bola, trocando meu nome por Guilherme.
Insegurança no Bom Fim, àquela altura da minha vida, tinha um sinônimo bastante inocente: punks com cabelos engomados estirados na calçada da Baiadeira e do Bar do João, depois de uma noite de porre. Aquelas cenas estranhas nas manhãs de sábado, a caminho das aulas de recuperação das greves no Anne Frank, forçavam-me a atravessar a Osvaldo e seguir pelo canteiro central. Mas era só.
Na adolescência, as rodas de violão do grupo de jovens da Igreja Santa Teresinha, perto dos pedalinhos, dificilmente eram interrompidas por preocupações. Hoje, qualquer página de um livro que se tente ler na Redenção não é folheada sem antes um providencial olhar para os lados em busca de suspeitos.
Não trata-se de saudosismo. Quem insiste em tomar chimarrão nos fins de semana nos bancos da José Bonifácio é freqüentemente incomodado por bêbados ou mendigos drogados. Nas manhãs de sábado, flanelinhas, além de tumultuarem o trânsito nos arredores da Feira do Verde, extorquem motoristas exigindo R$ 10 antecipados. Sem falar nos exibicionistas seminus que importunam as atletas com gestos obscenos atrás das árvores.
A insegurança no parque não respeita nem uma das épocas em que a Redenção fica mais bonita. No último fim de semana, vândalos picharam o Monumento ao Expedicionário e destruíram parcialmente a decoração de Natal montada para emprestar brilho à Feira Natalina. Que saudade quando o medo para mim - e para centenas de moradores que têm a Redenção como quintal - restringia-se aos inocentes punks jogados em frente à Baiadeira e ao Bar do João.


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