A fome da garça
Após 30 anos de convicto sedentarismo, decidi por anteontem e ontem iniciar minhas caminhadas pela cidade.
Deixo meu carro na Zero Hora, vou caminhando até a Redenção, lá faço a volta inteira pelo parque e retorno à Zero Hora.
Uma hora e vinte minutos de caminhada.
Ontem, voltei para a Redação com a consciência do dever físico e a satisfação metabólica cumpridos.
Quando cheguei aqui, comecei a me irritar: os EUA estão proibindo o Brasil de vender aviões para a Venezuela. Alegam que o presidente Chávez está fomentando uma rebelião dos países de língua espanhola na América contra os EUA.
E também querem proibir a Espanha de vender aviões para a Venezuela.
Isto é um fato inacreditável. Os EUA não se contentam em custodiar as questões bélicas em todo o mundo e pretendem também ditar as relações comerciais entre os países.
É um desaforo.
Mais me causa irritação o que vejo na televisão a seguir. As gerais do Estádio dos Plátanos, em Santa Cruz, estavam vazias para o jogo do time local contra o Grêmio.
Dou de cara com uma informação brutal: cobraram R$ 25 por cada ingresso, o preço mínimo.
É tão grande a estupidez que quase não acredito nela.
Está certo que o Rio Grande do Sul é onde a vida é mais cara no país, a cesta básica é mais cara, o ICMS é o mais caro, a gasolina é a mais cara, tudo é mais caro aqui, isso já faz mais de 30 anos, conforme esta coluna teve a primazia de anunciar.
Mas cobrar R$ 25 por ingresso de Grêmio x Santa Cruz já é demais. Se ninguém defende o torcedor gaúcho, esta coluna é obrigada a fazê-lo veementemente.
É caso para intervenção na Federação Gaúcha de Futebol, colocando o dirigente deposto a ferros.
Tem-se de pôr um paradeiro nesta insânia a partir da próxima rodada.
Não só pelo preço exorbitante, mas também porque ele é inibidor e castrador da ancestral vocação do torcedor pelo futebol. Isso serve para esterilizar a paixão na alma dos torcedores, é uma barbaridade.
É caso de medida do governo, é caso de Procon, é caso de polícia.
Isto é uma infâmia.
O que é que estão pensando?
Faço duas caminhadas da Zero Hora até o Parque Farroupilha, volto delas arejado, com minha taxa de açúcar no sangue decaindo, assisto no lago da Redenção a uma garça, na beira do lago, com os olhos fixos na água à procura de peixinhos, uma tartaruga mergulhada a atrapalha na caçada, eu fico ali sentado no banco de pedra a cismar sobre a fome que domina a garça na sua desesperada vigília, volto para a Redação animado por este meu passeio ecológico e urbano - e aqui me defronto com estas duas malas desencorajadoras, o Bush e o Novelletto.
É demais!