Parque Farroupilha (Redenção)

O quintal de casa

Matéria e foto publicadas na Zero Hora de 27 de outubro de 2006, Caderno Bom Fim.

zh-061027-2.jpg PRISCILLA FERREIRA
A Redenção é o meu quintal. E não é de hoje. Cheguei no Bom Fim há uns 10 anos. Guria do Interior, abandonei a Capital dos Ventos, no Litoral, e vim me aventurar em Porto Alegre. Para uma estudante sem grana que ia morar sozinha pela primeira vez, nada podia ser melhor do que o Bom Fim. Aluguei um minúsculo JK, úmido e escuro. Mas muito bem localizado, ficava ali na Santo Antônio, próximo da Osvaldo, onde eu encontrava ônibus para todos os cantos da cidade. E ainda tinha a opção de economizar passagem indo a pé ao Centro, à rodoviária, às festinhas na UFRGS, à Lancheria do Parque... Nos finais de semana, eu me refugiava no meu quintal e até esquecia que estava numa cidade grande. Passeava pelo parque, mateava com os amigos, lagarteava no sol. Que mais eu podia querer?
Anos mais tarde (e alguns endereços depois), casei com um DJ. O Kafu, meu marido, trabalha na noite há quase 30 anos e há mais de 20 vive no Bom Fim. Quando falei que ia escrever sobre o meu bairro, ele disse que eu não podia, que o bairro não era meu, era dele, que eu tinha chegado aqui bem depois. Ora, vejam só que audácia! Nem dei bola pra ele, até por que, eu acho que o bairro agora é nosso, é da família. O João Pedro, nosso herdeiro, nasceu no Bom Fim e tinha dias quando começou a freqüentar nosso quintal, que desde então funciona como uma extensão da nossa casa.
Hoje moramos em um apartamento bem maior do que aquele meu pequeno JK, mas tão escuro e úmido quanto. O charme da nossa casa está no que nos cerca. Nosso prédio fica na Henrique Dias, basta andar uma quadra e estamos no pátio, que é muito amplo e iluminado, uma grande área verde. Todas as tardes, enquanto eu trabalho, meu filho brinca no quintal. Foi lá que ele aprendeu a caminhar. Agora corre por tudo. Joga bola na grama. Brinca com os cachorros. Corre atrás das outras crianças. Cai. Levanta pra cair de novo.
Todos as manhãs eu caminho pelo nosso quintal. Saio de casa bem cedinho, deixo meus homens dormindo e vou caminhar no parque. Pra minha surpresa, descobri vários recantos escondidos, refúgios novos, lugares tão belos e que eu até então desconhecia. E eu que pensava que conhecia todo o meu pátio... São tantos caminhos que ele oferece que a cada dia escolho uma trilha diferente, mas sempre cruzo com os mesmos moradores ilustres: os gatos, os patos, os gansos, as tartarugas, outro dia vi até um gambá passeando por entre as árvores, bem tranqüilo.
Eu adoro o meu quintal. E cada vez mais eu aproveito tudo o que ele oferece. Na companhia do João Pedro, passei a freqüentar até as pracinhas, lugares que antigamente eu passava longe. Gosto tanto do meu pátio que nem me importo em dividi-lo com uma multidão de gente nos finais de semana. Afinal, tem espaço pra todo mundo.


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