OS ÚLTIMOS INTERNOS - Tradição de 122 anos chega ao fim
Dificuldade de atender exigências de estatuto e aumento de alunos levam Exército a fechar internato do Colégio Militar da Capital
Uma tradição protagonizada por milhares de estudantes ao longo de 122 anos está chegando ao fim com os cinco jovens da foto ao lado. Eles fazem parte da última turma de internos do Colégio Militar de Porto Alegre, com oito integrantes. Têm até o dia 22 para empacotar seus pertences e desocupar os beliches. A partir de então, estará extinto o internato na instituição.
Os últimos alunos representam o fim de uma linhagem que inclui o poeta Mario Quintana, o artista plástico Vasco Prado, o herói Plácido de Castro e cinco presidentes do regime militar. Alojados em quatro beliches, em uma ala de aproximadamente cem metros quadrados, são uma lembrança pálida do que o internato já representou na instituição.
Os alojamentos chegaram a ocupar 2 mil metros quadrados. Em alguns períodos, como entre 1939 e 1961, quando o colégio funcionou como escola preparatória de cadetes, a totalidade dos alunos era de internos.
Determinado pelo Exército, o fechamento é motivado pela dificuldade de atender às exigências feitas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (como contratar psicólogos e assistentes sociais) e pela necessidade de liberar espaço para salas de aula e laboratórios, em razão do aumento no número de alunos – hoje são 1,1 mil.
O estabelecimento de Porto Alegre é o último dos 12 colégios militares do país a eliminar o regime de internato, que oferece alojamento e alimentação gratuitos a alunos, em geral oriundos do Interior. A partir do ano que vem, os estudantes de outras regiões deverão ter uma pessoa responsável residindo na Capital.
– Não há dúvida de que dificulta para o aluno do Interior – afirma o coronel Leonardo Araujo, chefe da seção de Comunicação Social da escola.
O próprio Araujo foi interno, na década de 60. Ele tinha 10 anos quando entrou. Na época, 300 dos cerca de 800 estudantes dormiam na instituição. A rotina era rígida. Saíam da cama às 6h, assistiam às aulas pela manhã e dedicavam a tarde ao estudo obrigatório. Entre as 18h e as 19h, ocorria o chamado “passeio higiênico”. Era quando os internos tinham licença para sair à rua.
– Mas só podíamos ficar na frente do colégio. Nem no parque se podia entrar – recorda o coronel, referindo-se à Redenção, diante da escola.
Estudantes têm hoje rotina mais flexível
Depois do passeio, vinham mais duas horas de estudo obrigatório e ceia. Às 22h, os alunos entravam em forma no dormitório, e as luzes eram apagadas. Hoje, os últimos internos vivem uma rotina mais relaxada. Estão livres para sair à tarde e à noite. A obrigação é chegar até as 22h e pernoitar no local. Apesar das mudanças, os últimos internos consideram a experiência enriquecedora. Wesley Teló, 17 anos, com a família em Victor Graeff, afirma que o internato favorece a independência:
– Ajuda muito na formação. Aqui tu tens de fazer por ti.
Para marcar a transformação, o Colégio Militar promoveu ontem à noite um jantar que reuniu ex-internos de diferentes gerações e descerrou uma placa alusiva ao fim da tradição.
itamar.melo@zerohora.com.br
Internos ilustres
Conheça algumas personalidades que passaram pelas salas de aula do Colégio Militar de Porto Alegre
- Mario Quintana - Vasco Prado - Emílio Médici - Ernesto Geisel - Plácido de Castro poeta artista plástico ex-presidente ex-presidente libertador do Acre