Parque Farroupilha - A Redenção

O parque na Imprensa

GANGUES NA REDENÇÃO - O desabafo de quem vive sob a baderna

Matéria e foto publicados na Zero Hora de 03 de março de 2010, Páginas 4 e 5.

zh-100303-01.jpg O confronto entre dois grupos de adolescentes ocorrido no domingo no Parque Farroupilha, em Porto Alegre, despertou a atenção da população para a ascensão de um fenômeno complexo e perigoso. Os disparos de arma de fogo que deixaram um garoto morto e levaram pânico aos frequentadores do parque revelaram a ameaça representada pela multiplicação dos “bondes”, grupos de jovens que costumam se organizar pela internet e se reunir em parques e shoppings. O episódio do domingo mostrou a contraface terrível do fenômeno: a transformação do bonde em gangue, a rixa entre bandos diferentes, o uso da web para incitar a violência e a transformação dos parques em território de guerra.
Geralmente vinculados a alguma área da cidade, os grupos costumam sofrer a infiltração de adolescentes com inclinação para a violência. Foi o caso do domingo, quando ameaças pela internet feitas entre integrantes de um bonde da Vila Jardim e um rival do Campo da Tuca resultou em conflito e na morte de um adolescente.
Nesta reportagem, Zero Hora apresenta o desabafo de moradores das redondezas e apresenta as soluções para estancar a violência juvenil.
itamar.melo@zerohora.com.br

“Moradores ficam reféns do medo”

Embora o crime de domingo possa ter causado muita perplexidade em alguns, para os moradores da região isso é fato corriqueiro, e não traz surpresa alguma. Já faz algum tempo que os domingos na Redenção são complicados. Há mais ou menos uns 5 anos, a ZH fez uma grande reportagem sobre os jovens que invadiram o Nova Olaria e espantaram os clientes. Na realidade, o que vem acontecendo hoje é consequência daquilo.
Os jovens que seguem invadindo a Lima e Silva e que provocaram o fechamento de quase todas as lojas do Nova Olaria, o término do tradicional cinema-café-chope no Guion aos domingos, que provocaram o cercamento do shopping com grades assim como o cercamento do supermercado Zaffari da Lima e Silva também com grades, são os mesmos que provocam grandes arruaças, depredação na Redenção aos domingos a partir das 15h30min, mais ou menos. Tanto que após esse horário os moradores do entorno do parque ficam com medo de sair às ruas.
O que aconteceu não foi surpresa para nós que estamos acostumados em ver cenas deploráveis todos os finais de semana a céu aberto na Redenção. Os estupros por aqui ficaram bem mais frequentes, os jovens, que se vestem de preto e roxo, se excedem no álcool e nas drogas e estão acabando com a paz dos moradores e com o Brique da Redenção. Pelo menos a parte das antiguidades, que vai da João Pessoa à Santana, não mais funciona depois das 16h, embora os expositores tenham brigado há anos, para ficar até as 18h.
Eu moro na Travessa da Paz desde 1993, época em que a rua fazia jus ao nome, o que não mais acontece, pelo menos não mais aos domingos. Costumávamos receber os parentes e amigos para os almoços dominicais e depois passeios no Brique e na Redenção. Hoje os parentes e amigos querem é distância daqui, assim como nós. Moro a meia quadra do parque e, nos domingos, tenho de colocar meus cães no carro e levá-los a outros parques pelo medo e insegurança que temos no entorno da Redenção. Policiamento por aqui é raro e, quando tem, é claramente insuficiente.
Os jovens que tomam conta do parque costumam depredar tudo, promover brigas com paus, pedras e garrafas, consomem álcool excessivamente (vinhos em garrafas plásticas, misturado com cachaça e cerveja), consomem drogas ao ar livre em plena tarde, principalmente crack, fazem sexo a vista de todos etc. Brigas de gangues por aqui são bem comuns, só que até agora não tinha ocorrido nenhuma com desfecho tão trágico, embora já tenha havido tiroteio e até ameaças com armas.
Tenho um vizinho que já foi brutalmente espancado só por ter chamado a atenção de um garoto que estava depredando uma árvore. Outra amiga minha foi espancada, gratuitamente, em janeiro quando voltava do passeio com o cachorro (e ela só pensava na sorte que teve em não estar acompanhada também da filha de nove anos que costuma ir ao parque brincar com o cachorro).
Como disse, cada morador daqui tem uma história bem escabrosa pra contar. Uma câmera oculta por aqui nos domingos revelaria imagens estarrecedoras do que acontece num dos locais mais tradicionais da cidade. Uma fruteira localizada na Rua Venâncio Aires fatura alto aos domingos só por vender bebida alcoólica para esses jovens, muitos deles ainda bem distantes de completar 18 anos. É muito comum ver essas crianças caídas bêbadas e chapadas pelo parque, ou então fumando crack às vistas de todos, ou fazendo sexo ao ar livre sem qualquer pudor.
Infelizmente faltam palavras para descrever o horror que é por aqui aos domingos. Os prédios estão depredados, vidros quebrados, a Redenção é puro caco de vidro. As lixeiras do parque assim como as árvores amanhecem carbonizadas nas segundas-feiras. Indescritível. Os moradores de três bairros (Farroupilha, Santana e Cidade Baixa) ficam confinados em suas casas, reféns do medo.
Nós não sabemos mais a quem recorrer, quando chamamos a polícia eles não vêm, e francamente, entendo que eles não venham pois é uma turba revoltada, bêbada e drogada contra dois, ou no máximo três policiais. Posso relatar a vocês casos de espancamento, brigas, estupro e depredação que são comuns agora e sei que meus vizinhos sabem de outros tantos casos.
*O leitor que mandou o relato para Zero Hora pediu para não ser identificado, por temer represálias.

MORADOR DO BAIRRO BOM FIM*A REVOLTA DA POPULAÇÃO

zh-100303-02.jpg O tiroteio no Parque Farroupilha gerou preocupação no Estado e motivou dezenas de comentários em zerohora.com:
“Insegurança! Até quando? A falta de eficiência da polícia e dos orgãos de segurança devem ser responsabilizados. Os frequentadores do parque, como eu, sabem que isso era um fato bem provável, pois há alguns meses essas gangues andam por lá, enfrentando-se, criando alguns tumultos e deixando as pessoas receosas. E a polícia pareceu não tomar atitudes preventivas. O mais popular ponto de lazer da Capital tornou-se um lugar de pânico!”
Leonardo Dias
“Triste a sociedade onde os jovens se deixam influenciar pela cultura que é caracterizada pela violência, pelo que há de pior. Todos temos culpa pelo que está acontecendo aqui no Rio Grande do Sul. Somos coniventes com essa juventude que está à solta, sem regras, sem limites, cujos pais estão cada dia mais permissivos e ausentes. As leis não são nem punitivas e muito menos educativas. Precisa essa sociedade de urgentes medidas antes que um jovem ensandecido entre numa sala de aula atirando a esmo.”
Beatriz Portela
“Desisti de ir à Redenção há muito tempo. Quando não são os vagabundos se engalfinhando, são os políticos e seus cabos eleitorais atormentando e sujando o chão com o lixo eleitoral.”
Eduardo Mulher
“Tenho quatro filhos, todos homens. Sinceramente acho que tudo isso que está acontecendo com nossos jovens é graças a esse site de relacionamento, Orkut. Se não tivesse esse site, não haveria tanta rivalidade entre eles, nem vários outros crimes.”
Viviane Carvalho
“Moro próximo à Redenção e eu mesmo ja fiz ligações para o 190, denunciando confrontos dessas gangues nas imediações. Certa vez começaram o confronto na praça e terminaram na Venâncio Aires, na esquina da João Pessoa. Essas gangues de desocupados estão aos domingos na Redenção e na Lima e Silva, vagando nas imediações em pequenos grupos, provocando e ameaçando pessoas diferentes da tribo deles. O esperado aconteceu! Que se matem!”
Márcio da Silva
“É uma tristeza. A nossa Capital está virada num lixo só. Domingo, esses marginais tomam conta da cidade e das praças e fazem arruaças. Quando a polícia quer fazer algo, os cartolas dos senhores Juízes defendem e mandam soltar os marginais. Onde vamos chegar?”
Jane Devens
“Eu teria ido com minha família no horário do ocorrido, para ensinar minha filha a andar de bicicleta. Não fomos. Sorte nossa. Além da necessidade de ter sorte (ou proteção de Deus) devido à falta de segurança pública, vemos a Redenção cada vez mais suja, também devido à falta de cuidados de quem a usufrui. Afinal, qual será o preço da nossa “redenção”?”
Raquel Apratto Maciel




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